Hoje eu acordei numa cama diferente. A luz do sol não batia de relance nos meus olhos, anunciando o calor de um novo dia e deixando o frescor da vida lá fora invadir o conforto dos meus lençóis. Do lado da cama não estava a minha luminária de flor de cerejeira nem os meus diários manuscritos. Não havia a comodidade do ambiente que eu há tanto conhecera.
Hoje eu acordei com uma fresta estreita de luz banhando o quarto inteiro. Aquele tipo de luz serena que faz as poeirinhas do ar se tornarem visíveis a olho nu. Olhei para o lado e precisei esfregar os olhos para esmorecer a visão turva. Me questionei internamente o que de mais clichê poderia questionar: seria um sonho estar ali? Que deuses eu teria atormentado a ponto de me permitirem viver algo tão sublime assim?
Quando acordei do seu lado pela primeira vez e me senti completamente desconcertada (a anos-luz de distância do meu imaginário juvenil que pregava ser confortabilíssimo despertar com o homem da minha vida), compreendi que estava, ali, talvez, o mais próximo possível da absoluta vulnerabilidade. Me sentia exposta, frágil, entregue como nunca. E você era a causa.
Meu olhar permaneceu inerte em você, percorrendo cada milímetro do rosto que guarnecia o travesseiro em paz, certo de onde repousava. E eu, cá comigo, não parava de pensar que meu repouso é você, que é pro teu lado que eu quero retornar todas as vezes que saio de casa, que é no teu abraço que eu quero abrigar minhas angústias e aplacar meu medo do mundo. Não consigo me sentir cansada de imaginar acordar assim todos os dias.
Seu riso tem poder anestésico. O jeito como você me olha e pisca o olho pra mim enquanto escova os dentes me faz perceber o quanto atos banais da vida cotidiana ganharam outro significado desde que você chegou.
Tudo o que eu queria era alguém que me desse conforto, calmaria. Você não é nada disso. Você não consegue me deixar ficar no mesmo lugar, não consegue permitir que eu aceite menos de mim do que acha que mereço, não concorda que eu estacione nas convicções que estabeleci para me privar da necessidade de refletir e admitir que posso estar errada. Você me faz querer experimentar a vida todos os dias de um jeito diferente, me faz pisar no chão consciente de que sou responsável pelo roteiro do meu dia e pelo que posso fazer para torná-lo melhor que todos os outros.
Descobri que você torna o dia sempre melhor. Quando chega, instantaneamente muda o meu olhar. Quando vai, o deixa marejado. E sempre, eu disse sempre, me deixa com a sensação de paz que só é possível quando a gente tem clareza de que está no caminho certo da vida.
Imagino a gente sentado num batente de frente pra praia, num dia ensolarado e fresco, admirando o mundo que não para de girar nem por um segundo e parando de contar o tempo que a gente abrevia no abraço um do outro. Posso sentir o arrepio da certeza de não precisar de mais nada.
Imagino a gente quietinho numa cadeira de balanço, eu atravessando teu colo, você segurando um livro pra gente ler, passando as páginas devagar e dividindo comigo uma outra história além da nossa e fazendo todas as coisas necessárias do mundo findarem resumidas naquele momento. Imagino que a leitura acabe num beijo que se desfaz na sede de percorrer o corpo inteiro um do outro e esculpir as marcas de tanto amor em toda a pele.
Que bom que você me trouxe de volta pro ponto em que acreditar no amor é muito fácil, porque, afinal, ele está estampado em todas as direções para as quais se olhe e porque ele se reflete diretamente no jeito como você me beija carinhosamente todos os dias.
Você acaba de sair pela porta. Comecei a escrever para nunca, jamais, me deixar esquecer como você me faz sentir. Preciso documentar essa sensação para me agarrar a ela sempre que o sentimento soturno de brevidade invadir. Sempre que a noite cair e eu duvidar que o sol fulminará o horizonte com sua força no dia seguinte. Ele amanhecerá. E a gente vai junto, do mesmo jeito catatônico de sempre, espreitando a porta para que o barulho lá fora não furte a nossa calmaria.
Fecho os olhos e não importa se é noite: you are my sunshine.
Como sempre foi. Como tem que ser.
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