No Direito existe uma coisa chamada ação de prestação de contas, por meio da qual, em bom português, alguém pode ir lá no juiz e dizer: olha, juiz, tenho uma relação jurídica com fulano de tal e por causa disso ele precisa me prestar contas.
Acho que é o tipo de ação que Deus propõe contra a gente quando a vida acaba. É o tipo de ação que a gente propõe aos que já foram nossos amigos, aos que já foram nossos namorados, aos que já passaram por nós ou mesmo aos os que ainda estão conosco, mas sem a certeza sobre se ficam ou se vão. É o tipo de ação que também propõem contra a gente quando algo ficou por dizer.
É como se a gente precisasse se explicar sobre o que fez com o tempo e os recursos que nos foram dados, de que forma empreendemos esforços para aproveitá-los, ou, ainda, o quanto sonegamos, o quanto empurramos para debaixo do tapete, o quanto fingimos que não era com a gente, o quanto deixamos para depois, até que não tinha mais depois.
Não saímos ilesos de qualquer relação, seja ela amorosa, profissional, espiritual ou outra natureza que ela tenha. Todas elas, mais cedo ou mais tarde, nos pedem as contas e é preciso lidar com os frutos e dividendos daquilo que foi um misto de escolha e predestinação. Tudo o que vivemos nos soma ou subtrai alguma coisa, mas sempre nos acrescenta. Às vezes, acrescenta umas noites de lágrimas a mais no catálogo, noutras a alegria de ter cruzado o caminho com o de alguém que modificou de uma forma muito positiva a nossa percepção sobre alguma coisa.
É maravilhoso quando essa prestação de contas termina com bom senso, lucidez e um firme aperto de mãos entre pessoas bem resolvidas. Tudo o que poderia ser feito foi feito. Quando ambos partem para novas resoluções, novas vivências e o aspecto em comum deixa de ser motivo de mágoa ou disputa para ser motivo de orgulho: eu vivi aquela história.
É com pesar que reconhecemos intimamente quando uma relação, seja ela qual for, não terminou como deveria. A gente tenta a todo custo desqualificar o script porque, afinal de contas, não era assim que tinha sido programado. Pelos cálculos corretos, deveria acabar em final feliz, em foto pro Instagram, em dois filhos e um cachorro. Acabou em pizza. E você que aguente a indigestão.
Aqui vai algo importante sobre prestar contas: ela antecede e condensa a nossa certeza sobre o que vivemos. Nenhum ciclo verdadeiramente se encerra sem pingos nos is, sem chorar todas as pitangas, sem rir de todas as mazelas, sem amaldiçoar todos os santos, sem perseguir tantos motivos quantos bastem para acalmar o coração, sem confrontar todos os cálculos.
Deve ser por isso que eu nunca fui boa no assunto. Sou irremediavelmente de humanas.
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