Na minha época de escola, enquanto todos ansiavam desesperadamente pelo recreio - para comprar os chocolates com recheio de iogurte tão famosos que vendiam na cantina -, eu esperava pela aula de literatura.
Os dias de aula de literatura eram infinitamente mais bonitos. O vento era sereno e limpo, e batia no rosto de um jeito fresco. O dia era muito mais lunar do que solar, e carregava aquele ar de melancolia misturado com paz que é difícil de colocar em palavras. O sentimento de finitude era tão físico nesses dias que eu chegava a sentir saudade de toda aquela atmosfera antes mesmo que ela acabasse.
Para uma adolescente com dificuldades de se colocar para contar a própria história, o conforto vinha quase sempre de uma outra história, contada por alguém que eu nem conhecia, mas que parecia se comunicar comigo de um jeito que mais ninguém conseguia.
Foi desse jeito que os livros viraram meu refúgio. Passei a me enxergar em tantas histórias, romances, poemas, contos e crônicas que a vida passou a acontecer muito mais no campo das ideias que das ações. Por um tempo, afrouxei os cintos da realidade.
E passou a ser cada vez mais difícil retornar para ela.
Até que, de súbito, as histórias contadas por páginas amareladas deixaram de ser o suficiente para acalmar minha mente. Eu queria viver as minhas próprias histórias, mesmo aquelas cujo desfecho não agradava o leitor.
Parece que os livros ensinaram direitinho que a vida não basta se for vivida apenas no plano das ideias. É preciso transportar a sede de histórias para a realidade, e só então bebê-las, sentindo na pele o que os livros te fazem imaginar, mas que só a vida é capaz de mostrar.
E aí todos os dias passam a ter a mesma atmosfera do momento que antecedia as aulas de literatura para mim ou o recreio para os demais alunos: mal se pode esperar por eles.
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