A noite cheirava a cigarros e confusão e tudo o que ela queria era permanecer em seu carro, com um rádio de pilha na mão que tocava Joy Division. Mentalizava adormecer naqueles bancos que a dirigiram até algum lugar que não conhecia bem. Geograficamente, estava perdida. Amorosamente, por sua vez, devo dizer, completamente, anestesiadamente, perdida.
Não sentia dor, não sentia rancor, apenas uma vontade de acabar com as indústrias de balões de aniversário em forma de coração e com as canções de amor que declaravam bobeiras. Não havia ódio nem vontade de chorar, mas cordas vocais repetindo sonoramente "love will tear us apart again".
A rádio continuava a tocar Joy Division e o botão do volume alavancado no máximo parecia não mais conter o som da chuva que começava a cair. Com as janelas repletas de orvalho e a neblina avistada pelo retrovisor, a noite parecia ter se resumido a nostalgia, café frio e uma vontade alegórica de voar.
Ah, sempre o amor, o café e a saudade corrompem nossa existência, senão pela alegria, pela dor. Desta vez, como não poderia deixar de ser, demorou para passar, talvez mais do que havia demorado aquela viagem sem destino e sem mapa, mas quando enfim chegou a algum lugar, o ponto geográfico parecia ter coincidido com o final perfeito: a cura.
Joy Division deu lugar a The Strokes, o sol surgiu tímido e reluzente como nunca entre as cortinas transparentes do mesmo quarto que há tempos só recebia luz do abajur à beira da cama, silencioso e comovido. A janela finalmente se abriu, assim como os olhos que brilharam novamente um azul intenso. O semblante de descrença deu lugar a um sorriso tímido de quem acredita na mensagem do universo, nas músicas de folk e nas reconstruções capilares de um minuto, exatamente nesta ordem. A nostalgia permanecia lá, o café, por sua vez, tão ou mais frio quanto antes. O que mudou, então? Reconstruiram-se as asas. Com ela, retornou o canto forte que dizia "i ain't wasting no more time".
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