quinta-feira, 17 de maio de 2018

NOTAS SOBRE O AMOR

Da janela do meu quarto, nesse exato momento, escuto alguém dedilhar no violão "Mesmo que mude", música da banda Bidê ou Balde, que coincide exatamente com o assunto do texto de hoje. Portanto, o "para ler ao som de" que eu costumo inserir nos textos, hoje fica ao crédito do meu adorável vizinho que eu desconheço, mas que pelo gosto musical já considero pakas.

Franz Kafka é um dos escritores que mais revolve a ordem natural das concepções que eu carrego. Uma simples frase escrita por ele num livro que li durante a faculdade foi capaz de me trazer questionamentos cujas respostas até hoje desconheço, ignoro ou evito pensar a respeito (porque pode ser um tanto desesperador se desvencilhar da capa de ignorância que aquece nossas doces ilusões).

Apesar de ser conhecido como um autor difícil, era magnânimo no que escrevia. E hoje eu divido, sem maiores pretensões, um trecho apresentado a mim e que, à época, encaixou como uma luva no momento que eu atravessava. Até hoje me toca profundamente e me lembra com muita ternura um trecho específico de um dos meus filmes favoritos - "O fabuloso destino de Amelie Poulain" -, no qual Amelie, após a morte da mãe, cansada de ver o pai resguardar-se da vida em uma bolha de isolamento social, furta o anão de jardim dele e passa a enviar fotos do anão em diversos lugares do mundo, como uma forma de incentivar o pai a descobrir a vida lá fora e alterar sua percepção sobre o tempo, o espaço e, sobretudo, o amor - que fica depois que alguém vai.

“Franz Kafka, conta a história, certa vez encontrou uma menininha no parque onde ele caminhava diariamente. Ela estava chorando. Tinha perdido sua boneca e estava desolada. Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não se lamente por mim, parti numa viagem para ver o mundo. Escrevo para você das minhas aventuras”. Esse foi o início de muitas cartas. Quando ele e a garotinha se encontravam ele lia essas cartas compostas cuidadosamente com as aventuras imaginadas da amada boneca. A garotinha se confortava. Quando os encontros chegaram ao fim, Kafka presenteou a menina com uma boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original. Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”. Muitos anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta. Em resumo, dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”. (May Benatar, no artigo “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)

(Não sei vocês, quando chego ao ponto final que encerra esse texto, sinto que preciso recobrir meus pulmões de ar puro para espantar a dolorida sensação de concretude que ele deixa no peito).

Natural remeter também à célebre frase que ouvimos repetidas vezes nas aulas de química do colegial: na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Ou ao poema de Leminski que bem define o fim do amor como "matéria prima que a vida se encarrega de transformar em raiva. Ou em rima."

Não faltam exemplos na música, na literatura e - felizmente ou não - na pele de cada um sobre os efeitos da transformação do amor e da necessidade constante de refletir sobre o apego emocional a algo que depositamos em pessoas e coisas, mas que deveria, antes de mais nada, ser encontrado no terreno fértil da nossa própria construção de vida.

O que resume, enfim, essa tentativa falha de discorrer - ainda que precariamente - sobre o tema vem também de um poema que figura entre os meus favoritos, do grande Guimarães Rosa, que diz:

"Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer."

Fiquemos com a lição: o amor sempre retorna (ainda que não o mesmo) e, em forma de mágoa ou poesia, nos ensina a entender que somos capazes de nos alegrar sozinhos, abraçados com o amor que mais exala perfume de eternidade: aquele nutrido por nós mesmos.

C'est la vie.

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