quinta-feira, 31 de maio de 2018

CICLOS

Dentro da antroposofia há o estudo de uma teoria intitulada "teoria dos setênios". De acordo com ela, a vida humana é cíclica a tal ponto que é possível definir períodos de sete anos de tempo cronológico dnetro dos quais cabe um ciclo de experiências comum a todas as pessoas.

Em linhas gerais, cada ciclo apresenta desafios e características próprias e a cada ciclo ultrapassado se soma a experiência dele retirada para que, na vivência do próximo, sirva de substrato.

Basicamente, dos 0 aos 21 anos, isto é, dentro dos três primeiros ciclos, há o amadurecimento corpóreo e a formação da personalidade, logo após substituída pelos ciclos da alma, dos 21 aos 42 anos. Nos ciclos da alma, nos inserimos no meio social e definimos nosso lugar no mundo através da escolha de profissão, convívio, casamento, etc. Somente a partir dos 42 anos iniciam-se os últimos ciclos, cujo núcleo central é definido em torno da espiritualidade. 

Acho a teoria extremamente válida para explicar as fases pelas quais todo mundo passa, não necessariamente de forma estanque e bem delineada, claro, mas ainda assim capaz de assemelhar todo e qualquer homem consciente dos desafios que a vida é capaz de impor nas mais variadas fases.

Esse papo me lembra uma passagem de um conto da Cecília Meireles chamado "Brinquedos incendiados", no qual ela relata que: "uma noite, houve um incêndio num bazar. E no fogo total desapareceram consumidos os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos um por um (...) E começávamos a pressentir que viriam outros incêndios. Em outras idades. De outros brinquedos."

Cada fase vivida - ainda que não representada por períodos cronológicos de sete anos como pretende supor a teoria dos setênios - é um incêndio de brinquedos. Perdemos convicções às quais fomos agarrados por toda uma vida e, sentados diante das cinzas, somos obrigados a nos recompor. Fazer algo com aquilo que nos fizeram, em analogia clara à pregação existencialista de Sartre.

O que temos feito daquilo que nos fizeram? E, também, daquilo que temos feito de nós?

Algumas reflexões caem como uma luva em determinados momentos da vida e creio estar naquele em que - coincidindo com a teoria antroposofista - se dá a busca pelo seu valor e seu lugar no mundo. Me pergunto de que forma posso manter minha existência coerente e alinhada com os meus propósitos e valores e, ainda assim, usufruir da variedade mundana e trivial de acontecimentos: festejos, relações, riso solto, pouca sobriedade, recados em guardanapos e beijos adormecidos e fenecidos em adeus. Quero, como nunca, tomar as minhas próprias decisões. Ser dona do meu caminho. Entender que não preciso que gostem de mim, mas que, diante da consciência de que não gostam, estar bem com isso. Gostar é, antes de tudo, verbo a ser conjugado na primeira pessoa do singular, aprendamos sem as surras da vida.

Imbuída de tantos quereres, me pergunto quanto pode uma força movida pelo desejo, pela ambição humana e primitiva de fazer imperar a própria vontade, realizar? Nietzsche responderia, albergado por seu conceito de vontade de potência, que não há limites. Não há limites. Os acontecimentos estão, portanto, ao alcance de nossa vontade e do quanto empreendemos no sentido de vê-las materializadas.

É assim que concluo que, se para viver basta estar vivo, para morrer também. Como já possuo a condição mínima para ambos os acontecimentos, escolho a primeira. Ainda que precise diuturnamente descobrir como.

Live and let live.

2 comentários:

  1. Por favor, simplesmente, continue com o blog.
    Achei por acaso, enquanto buscava por um blog antigo de comédia, e caralho, olha o que eu achei. Sou grato por ter escrito tudo isso, está me ajudando a abrir a mente e descobrir novas coisas, pensar novas coisas.

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    1. Que bom que se sentiu parte desse universo! Muito obrigada pela visita e por tirar um minutinho para me escrever. Volte sempre! 😊

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