Para ler ao som de: The Lumineers - Angela
Cansada de ter os pés descalços e o corpo inteiro se decompondo dia após dia no tempo, fiz de ti morada. Calcei tuas meias, vesti tua camiseta folgada que estampava uma música de amor dos Strokes e deixei que o tempo cuidasse de manter aquecida a xícara de café do lado da cama. Derrubei todos os cones da estrada cantando pneu na caminhonete velha dos teus pais depois que você me disse que dessa vez era pra valer, que tinha vindo pra ficar. Dirigi rumo ao fim do mundo com você praticamente adormecido no meu colo, rindo à toa de alguma canção que o rádio reproduziu aleatoriamente e que te arrancou aquele sorriso afogado numa covinha (que faz minhas pernas bambearem e esquecerem o caminho de casa toda vez). Me certifiquei de que meu sabor penetraria tuas veias até estar circulando por teu corpo inteiro. Não tínhamos hora para voltar e ainda assim parecia pouco tempo ter todo o tempo do mundo ao teu lado.
Cansada de ter os pés descalços e o corpo inteiro se decompondo dia após dia no tempo, fiz de ti morada. Calcei tuas meias, vesti tua camiseta folgada que estampava uma música de amor dos Strokes e deixei que o tempo cuidasse de manter aquecida a xícara de café do lado da cama. Derrubei todos os cones da estrada cantando pneu na caminhonete velha dos teus pais depois que você me disse que dessa vez era pra valer, que tinha vindo pra ficar. Dirigi rumo ao fim do mundo com você praticamente adormecido no meu colo, rindo à toa de alguma canção que o rádio reproduziu aleatoriamente e que te arrancou aquele sorriso afogado numa covinha (que faz minhas pernas bambearem e esquecerem o caminho de casa toda vez). Me certifiquei de que meu sabor penetraria tuas veias até estar circulando por teu corpo inteiro. Não tínhamos hora para voltar e ainda assim parecia pouco tempo ter todo o tempo do mundo ao teu lado.
Lembro de acordar e ter no rosto um rubor diferente do habitual. Me recordo de olhar para o lado e reconhecer a cama vazia, os lençóis amarrotados das nossas idas e vindas, e de achar que ia me ver envolvida mais uma vez no furacão de insensatez que era te amar tanto e te querer tão longe de mim ao mesmo tempo. A toxicidade da sua presença sempre me fazia menos minha do que eu gostaria de admitir e parecia que a gente era feito um para o outro, mas não para durar.
Só que dessa vez eu me sentei na cama, respirei fundo e contive o ímpeto de esbravejar que era o fim. Foi o suficiente para ver uma flor vermelha sob a mesa com todas as pétalas arrancadas, à exceção de uma. Era uma sobrevivente, como nós. Era como na história que sempre contávamos um para o outro de que toda flor resiste à bravura do tempo se a última pétala for de um "bem-me-quer" tão forte que cria força para submergir em qualquer pântano e voltar de lá irretocável.
Eu tinha uma crença trêmula e pálida no nosso amor, que sucumbiu de uma vez por todas quando eu abri a porta e te vi sentado na varanda com uma taça de vinho assoviando uma canção ao lado da vitrola. Você me olhou com aquele olhar de quem tinha encontrado a paz no meio do caos e encaixou minhas pernas no teu colo, respirando fundo na minha nuca e desvendando devagar o terreno do meu arrepio mais voraz. Ali mesmo nos casamos, corporificamos cada célula do nosso amor e tatuamos na alma que estávamos para a poesia como Tolstoi estava para a prosa.
No novo engenho que havíamos erguido estávamos a salvo do mundo e podíamos gritar na beira do precipício que altura alguma confundiria nossa razão. Éramos o ponto de partida e de chegada um do outro; a ponte de corda a unir o desfiladeiro. Éramos, por acaso, mais fortes que o que nos separava. Podíamos, juntos, perder a estribeiras. E perdemos. Para nunca mais achar.
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