domingo, 24 de junho de 2018

ANESTESIA

Para ler ao som de: Florence and The Machine - Hunger

Quando eu tinha cerca de nove anos de idade, eu e meu irmão brincávamos de guerra de almofadas sozinhos em casa, em plena tarde de terça-feira. Almofada vai, almofada vem, o arremesso dele foi parar precisamente no meu dedo mindinho direito. Como boa parcela do corpo de alguém dramático, em vez de quebrar só um pouquinho meu dedo estraçalhou em pedaços. Visualmente foi a um ângulo que dedos mindinhos normalmente não vão. E eu só sabia rir.

Até que, passada a euforia da endorfina e internalizada a situação, a dor começou. O médico logo tratou de injetar uma anestesia e mexer com meu dedinho pra lá e pra cá, como se fosse massinha de modelar. Colocou o gesso, a tala, envolveu como um bebê recém-nascido que precisa de muito cuidado porque veio ao mundo prematuro. No fim, sem dor e com uma tela em branco pros colegas da escola fazerem de mural de recados, voltei para casa.

Lembro que quando tirei a imobilização a unha do meu dedo mindinho estava enorme. Eu ainda não era mocinha, não pintava as unhas, muito pelo contrário, as roía tanto quando podia. Foi a primeira vez que vi minha unha grande e me achei o máximo, ainda que todas as outras nove estivessem, como gostava de dizer, “só o cotoco”.

Mas, voltando ao ponto, o que eu quero é falar da dor que até hoje sinto no local da anestesia. Muita gente que perde membros do corpo relata a existência de uma dor fantasma, uma dor real que se sente no membro que não está mais ali. É como se o corpo não processasse a perda e, no instinto de vigilância, precisasse continuamente avisar sobre um perigo.

Eu não perdi meu dedinho, mas sinto uma dor aguda, desafinada, cortante, que contraria o instinto de achar que algumas dores precisam parar de doer uma hora ou outra e me adverte de que sou perecível. Meu dedinho quebrado já debutou e até hoje precisa lidar com a dor.

As dores, diria Emily Dickinson, não amenizam com o tempo, mas se fortalecem, tal como os músculos. Se o tempo fosse remédio, chancela: nenhum mal existiria.

Fiz da minha dor no dedo mindinho uma grande amiga. Ela me lembra que suportei sorrindo um acidente de percurso que poderia ter me roubado instantaneamente a alegria e não me deixa esquecer que sou capaz de suportar ainda mais.

Cumprimento as pessoas com a minha dor. Pinto a unha que repousa sobre a minha dor. Ela faz parte de mim como tudo o que vivi e que não doeu também faz. A diferença, a sutil diferença, é que ela me faz mais forte. Ela suaviza a ranhura no meu telhado e também me alerta que sou frágil. E essa coexistência paradoxal de força e fragilidade é o suficiente para que eu siga ciente de que há sempre o que valorizar na bagagem da vida, mesmo quando não parece. Cada dor é única e a minha possui o predicado fundamental de não pertencer a mais ninguém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário