segunda-feira, 20 de agosto de 2018

IDENTIDADE

Meus alunos nunca ouviram falar de Franz Kafka. "Como se escreve?", perguntou a mais curiosa. Torceram o nariz quando citei Robert Frost, Carl Jung e Aristóteles. Certamente desconhecem as lendas e fábulas da minha geração e dariam uma sonora gargalhada se eu lhes falasse que utilizei disquetes para salvar meus trabalhos escolares.

Percebi, após respirar fundo - de um jeito feliz e aliviado -, que pertenço a uma geração cuja parte mais icônica da vida já repousa guardada num potinho empoeirado na estante: os suspiros da adolescência, o primeiro amor, todas as referências musicais e literárias, uma quantia sem-número de situações caricatas aparentemente retiradas de filmes, fotografias, cartas de amor e flores murchas, tudo isso já não escancara mais o álbum de possibilidades da vida que ainda surge quando todo novo dia nasce. Faço parte de um grupo de pessoas que já teve sua identidade construída e que, daqui pra frente, só luta para não perder o sentido no meio da reciclagem de gostos e modos de ser.

A certa altura da vida as coisas começam a ganhar um certo contorno de previsibilidade. Já se sabe um pouco o que esperar de tudo. As músicas só surpreendem na criatividade das onomatopeias veementemente repetidas; sonoridade já não se renova. Os livros de hoje contam histórias que as histórias de outrora não podem competir (a avassaladora diferença de qualidade sequer permitiria qualificar como competição). Os amores que pulsam no peito já não dispõem do mesmo propósito de seguir em comunhão a trilha de tijolinhos rumo ao por do sol. Até as aves que aqui gorjeiam, em alusão ao poeta, não gorjeiam como as de lá.

Há um certo ar de que é cedo demais para sepultar lembranças, pois elas se criam o tempo inteiro. De fato. Porém, insisto que as maiores já repousam em sono profundo dentro de alguma gavetinha da nossa mente. Não é possível voltar ao primeiro acorde sem desrespeitar o ritmo da música, embora, por sua natureza cíclica, ele venha a ser tocado novamente em poucos instantes. Não se trata mais do mesmo acorde, nem da mesma parte da música. É um pedaço saudoso do que já foi lá atrás e que volta a ser por uma questão estilística: cai bem na melodia.

Creio também que os melhores dias ainda não foram vividos e, para eles, guardo o meu melhor, essa versão que já sabe definir o que quer, como quer e com quem quer, sem se ater demais ao burburinho lá fora. Tenho uma vela de maçã verde na cabeceira da cama que toda noite ilumina meus pensamentos e me lembra - do mesmo jeito feliz e aliviado do início do texto - que um dia meus alunos terão seus próprios Kafkas e Jungs para se orgulhar. Eles terão seus próprios preciosismos e suas próprias histórias contadas em alguma agenda velha cheia de pétalas murchas e músicas de rock. Eles saberão como foi doce a vida que fica guardada depois que o momento deixa de ser aquilo que está diante dos nossos olhos.

Até esse dia chegar, Kafka se escreve com K.

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