Aos doze anos, numa manhã ensolarada como praticamente todas as outras que circundam a região onde vivo, fui à escola. Chegando lá, aula de português. O professor entra na sala com sua careca brilhante, seu sapato preto sempre muito bem engraxado e anuncia um desafio de soletrar cujo prêmio seria um desejado pirulito em forma de coração. Feliz da vida, ganhei o desafio. A palavra final era extrato e os outros concorrentes caíram na casca de banana de escrever "estrato". Mas eu lia, além de muitos livros, embalagens de produtos. E morava próximo a uma fábrica de - você já deve ter deduzido, caro leitor -, isso mesmo, extrato.
Guardei a embalagem do pirulito no bolso do uniforme como quem guarda a medalha de ouro de uma olimpíada. Gostar de português em meio a uma fase sombria da pré-adolescência me fazia sentir um extraterrestre se comparada aos outros colegas, porém extremamente feliz de concluir textos inteiros no meu diário particular sem mais do que um ou dois erros gramaticais, coisa pouco comum para a idade.
Em casa, lembro-me de tirar o papel do pirulito do bolso e pensar que gostaria de me lembrar disso no futuro. Hoje, 21 de fevereiro de 2019, treze anos depois, o desafio foi cumprido. Por pouco não contive a hesitação seguida da emoção ao lembrar do papel.
Essa foi, talvez, a minha primeira lembrança de como tudo começou - essa mania de colecionar recordações. Tenho, hoje, um baú recheado de histórias do que vi e vivi de perto para lembrar. Entre cartas de amigos e amores, textos sobre as descobertas da vida, bilhetes escritos à mão, embalagens vazias, flores murchas, embrulhos de presente e perfume de passado, vejo o quanto a vida da gente é feita de momentos colecionáveis.
Enquanto descrevo, quase posso sentir tudo novamente. Releio as cartas, ouço os cds, percorro as embalagens com as mãos e é como se cada momento voltasse, por um instante, a ser palpável. Como se o amor fosse eterno, como se a infância fosse um lugar ali na esquina, para onde posso voltar quando bem quero. Como se os amigos não fossem embora e as coisas não servissem para nos mostrar que somos finitos não só diante delas - que tantas vezes resistem a nós -, mas diante da imensidão do mundo que nos guarda.
Creio que todos nós guardamos, ainda que não fisicamente, um inventário de histórias, lembranças, sentimentos. Eles nos lembram do que já vivemos e nos alertam para o perigo da inércia: é preciso manter-se em movimento para manter-se também vivo. Caso contrário, fenecemos. As cores de nosso céu desbotam. Os cadarços desamarram. A rodinha da bicicleta solta.
Abrir o meu baú é como respirar fundo: me devolve a certeza de que estou preenchida de tudo que preciso para continuar. As vezes, não tão completa como gostaria. Quase sempre precisando buscar bem fundo o ar que falta pra continuar. Mas sempre confiando no suspiro seguinte. E escrevendo cartas que nunca serão lidas porque, às vezes, o que a gente sente é como o que a gente viveu: melhor que fique bem guardado num baú. E resistindo à ira. E agindo com bravura. E caminhando com doçura. Porque, de algum jeito, o passado me diz que é assim que tem que ser.
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