A liquidez do nosso tempo, em analogia a Bauman, expõe muito mais que relações frágeis. Expõe uma dose categórica de covardia. O amor, diz a Bíblia, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Amor, portanto, exige sacrifício, espera, escolha. Não o sacrifício da violência ou da submissão, mas o do crescimento a dois, o de saber dar um passo para trás quando o compasso do outro não permite estar no mesmo ritmo, o de saber acalmar, conduzir e serenar o peito agitado de quem fraqueja na própria fé. Não se trata de não arredar o pé por razão alguma, mas selecionar bem as razões pelas quais se vai embora. Lispector diria que o óbvio é a verdade mais difícil de enxergar. Pois bem, livremo-nos do ópio que tem dissuadido nossa razão: amar é decisão. E decisão só é tomada por quem sabe o que quer, coisa cada dia mais difícil de visualizar em uma sociedade de opções, aparências e loterias. Muitos querem abrigo na chuva, pouco estão dispostos a segurar um guarda-chuvas. Muitos pretendem o lucro sem estudar o preço do investimento. É assim que uma geração inteira se perde nos dividendos de sua própria inabilidade para viver: pressentindo que o caos ofertará amparo, quando na verdade o amor busca morada no peito de quem o escolhe como parceiro no grande recreio que é a vida.
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