Acordei com o barulho dos trovões na minha janela. Uma sinfonia deles. Tratei de observar, um a um, os raios que desaguavam no horizonte, furiosos e trêmulos. Levantei, preparei um chá na xícara bordô com alça para canhotos, e me pus no batente do quintal para admirar o dia.
O vai e vem das plantas sentindo o vento tocá-las, o cheiro intenso de mormaço dissipado no frescor, a palidez do dia refletindo nas paredes, o tilintar do mensageiro preso à porta, a sensação de estar mais próximo de Deus, não havia dúvidas: cairia um toró daqueles.
Há quem sinta que os dias de chuva são prelúdio de mau agouro, como se somente o sol, nascendo e morrendo todos os dias, pudesse nos ensinar sobre a perfeição da natureza. Desconfio, contudo, que não há milagre maior que observar as gotículas de chuva apostando corrida na janela. A chuva tem ainda o condão de cair do céu, coisa que não se pode esperar de mais nada nessa vida.
O chá esfriou enquanto meus pensamentos vagavam. Provavelmente, escoaram para algum ralo onde também repousava o mundaréu de água que insistia em cair. Agora, perdidos por aí, deixaram em mim a vaga sensação de ter perdido alguma coisa. Tempo, talvez. O que me faz pensar que somos todos estrangeiros do tempo: não falamos sua língua, não entendemos seus costumes e modos peculiares de passar, mas nos mantemos curiosos sobre como ele parece ser o maestro da sinfonia da vida.
Espera-se que o tempo passe, assim como a chuva. Não se espera que chova para sempre, mas se espera que nunca pare de chover. Marinheiros aguardam a bonanza. Banhistas torcem pela chegada do sol para pegar uma praia. Mas todos esperam que eventualmente chova. Quando passa - o tempo ou a chuva - nossa alma ganha uma tatuagem de finitude: marca para sempre a efemeridade das coisas, exibe em nós a lágrima contida ousando se aninhar no canto do olho.
Pressinto que tempestades e dilúvios continuarão a se derramar sobre nós com a mesma valentia de um cavalo indomável, encharcando certezas postas para secar ao sol. O tempo, a seu modo, passará de forma cada vez mais avassaladora, desenhando novas linhas sobre o rosto refletido no espelho. Ambos tentarão nos lembrar de que não estamos no controle de nada. Mas que isso não nos impede de apreciar a paisagem - e a passagem: do tempo, da chuva, da vida.
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