Para ler ao som de: Yann Tiersen - Porz Goret
Quantas vezes, por desejo de que fosse diferente ou por pura teimosia, você questionou um acontecimento da vida? Se do outro lado da tela me deparo com um ser humano de carne e osso, sei que foram vezes suficientes para que os dedos da mão não fossem capazes de contabilizar. Esse texto, então, é para você.
Quantas vezes, por desejo de que fosse diferente ou por pura teimosia, você questionou um acontecimento da vida? Se do outro lado da tela me deparo com um ser humano de carne e osso, sei que foram vezes suficientes para que os dedos da mão não fossem capazes de contabilizar. Esse texto, então, é para você.
Cheguei aos vinte e seis anos mais rápido do que poderia supor que demoraria. Ontem, quando fui dormir, tinha só quinze. Me lembro perfeitamente de ir para a cama pensando se algum dia daria meu primeiro beijo e quais livros leria nas férias de verão.
Você pode imaginar o susto quando, hoje cedo, ao me olhar no espelho, me espantei com as linhas finas denunciando a passagem do tempo. Sou, hoje, o resultado das escolhas daquela garotinha preocupada com amor e literatura. Além da extensa lista de livros lidos e da tímida coleção de desamores, trouxe ao presente a soma de caminhos e acontecimentos que, assim como a passagem rápida do tempo, eu não poderia supor. As coisas não perguntaram minha opinião, não se curvaram diante de mim. As coisas simplesmente se sucederam.
E eis que passei, por uso da teimosia lá do início do texto, a questionar acontecimentos, cárceres mentais, submissões sociais, todo o tipo de coisa que em algum grau influencia a nossa existência nesse planetinha astuto que é a terra. Em algum momento da minha lorota filosófica, minha própria mente fez questão de alertar que o solo já não era fértil para revolver sementes do passado e esperar que delas germinassem novos brotos.
"O que está feito está feito", "não adianta chorar pelo leite derramado" ou "o que não tem remédio, remediado está" são apenas alguns dos ditados usados para se referir à situações nas quais sentimos de forma pungente a nossa incapacidade de determinar alguma modificação no rumo dos acontecimentos, que, sem pedir nossa permissão, se instalaram em nosso peito.
Ora, o que resta, então? Viver o descontentamento, imaginar as possibilidades a que outros caminhos teriam levado ou... se conformar?
A filosofia estoica defende que somos - ou pelo menos podemos ser - a calma em meio ao caos. Para eles, a resiliência, o forte apego ao senso moral e o exercício de desapegar da necessidade de controle moldariam a melhor concepção de vida para o homem. A partir dessa ideia, prega e afirma que os acontecimentos, da forma como se deram na vida de cada ser humano, seguiram o único curso possível.
Admitem, com isso, que qualquer especulação sobre a dualidade de caminhos de um determinado acontecimento, se persiste no íntimo do homem, serve ao exclusivo intuito de promover sua inquietação. Não há rotas alternativas almejadas para o que aconteceu senão aceitar a própria rota alcançada.
Admitem, com isso, que qualquer especulação sobre a dualidade de caminhos de um determinado acontecimento, se persiste no íntimo do homem, serve ao exclusivo intuito de promover sua inquietação. Não há rotas alternativas almejadas para o que aconteceu senão aceitar a própria rota alcançada.
Os estoicos entendem que não devemos julgar a existência de um melhor caminho para as coisas senão acolhendo a forma como elas acabaram acontecendo. Aceitar o curso natural daquilo que está fora do nosso campo de controle conferiria ao homem a serenidade da aceitação e, ainda, a possibilidade de direcionar seus esforços simplesmente para as coisas cuja modificação dependeria de sua postura. Trata-se de uma mistura de economizar energia com não perder tempo.
Em certo nível, consciente ou não, a filosofia estoica influenciou a construção do conceito nietzschiano de "amor fati", isto é, de "amor ao destino". A tradução dada por Nietzsche ao pensamento estoico ilustra perfeitamente o sentido de deixar para trás qualquer especulação sobre os caminhos não percorridos. O único caminho a importar é aquele em que pisamos hoje.
Nada poderia ter sido o que não foi. Nada poderia ter seguido um curso diferente do que seguiu. Tudo aconteceu na ordem causal esperada, senão pelo homem, pelo controle exterior às coisas. Somos, mais do que ganhos, a soma de nossas perdas e a intenção de não permitir que elas determinem, sozinhas, a extensão de nosso sucesso ou fracasso.
Você há de convir que viver em tamanha sintonia com o destino parece tarefa, senão para filósofos, árdua demais para qualquer cidadão comum que rejeite a origem de seus sofrimentos e calvários. O espírito, entretanto, se forja também na guerra particular com o que gostaríamos que tivesse sido, e não foi. Se forja com as nossas insatisfações e o olhar - de mágoa ou gratidão - que resolvemos voltar em direção às memórias a elas relacionadas.
Você há de convir que viver em tamanha sintonia com o destino parece tarefa, senão para filósofos, árdua demais para qualquer cidadão comum que rejeite a origem de seus sofrimentos e calvários. O espírito, entretanto, se forja também na guerra particular com o que gostaríamos que tivesse sido, e não foi. Se forja com as nossas insatisfações e o olhar - de mágoa ou gratidão - que resolvemos voltar em direção às memórias a elas relacionadas.
Da próxima vez que você se questionar sobre os rumos de um determinado acontecimento, use também Sartre para ajudá-lo(a) na resposta: mais importante que o que fizeram com você ou que aquilo que lhe aconteceu é o que você fez/faz a respeito disso. A pregação existencialista combina perfeitamente com os tons estoicos.
Todos os acontecimentos são oportunidades de crescimento e embora não sejam necessária e intrinsecamente bons podem nos levar a uma compreensão maior de nós mesmos, se usados com sabedoria esperada de quem aprendeu a lição primordial da vida, pré-requisito para qualquer existência com significado: sem caminhar não há caminho.
O encontro com insatisfações e questionamentos é o desaguar natural de qualquer um que possa se orgulhar de ter vivido. Se você tem questionado seu caminho, portanto, o livro da sua vida tem evidenciado e anunciado que você está vivo. E vive.
Continue até que não haja mais caminho. Ame o destino, seja ele qual for. Mas se eu puder te dar um conselho, digo sem medo de errar: empenhe-se para que o destino que tiver de amar possa coincidir com o destino que você efetivamente escolheu. E se isso acontecer, curva-te. És integralmente dono de teu próprio destino.
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