sábado, 15 de fevereiro de 2020

RESSIGNIFICAR

Não me recordo a origem, mas li certa vez que a palavra ressignificar quer dizer muito mais do que simplesmente alterar o significado de alguma coisa. Ressignificar quer dizer "retirar afeto", ou seja, alterar a percepção afetiva de algum acontecimento sobre você. 

Nem sempre somos capazes de articular com clareza o significado de acontecimentos no exato momento em que eles se sucedem. Muitos deles, é provável, só conseguiremos digerir em alguns bons anos, talvez décadas. É provável que a memória de algo acontecido ainda na infância ou juventude assombre até hoje seus comportamentos.

A experiência me leva a crer que todos nascemos com um senso inato de ressignificação. Penso que se não fôssemos capazes de promover a "cura interna" de diversas experiências, nossa expectativa de vida não subiria ano após ano. As doenças, há quem acredite, possuem um forte componente mental/emocional, e por essa razão não seria leviano afirmar que a falta da capacidade de ressignificar levaria ao padecimento muito mais veloz da raça humana.

Esse senso (ou habilidade, potencial, capacidade, como queira chamar), contudo, não é ilimitado. Cada ser humano, à medida dos anos, desenvolve-o de forma mais ou menos extensa, o que explica porque algumas pessoas passam a vida acorrentadas a fatos pretéritos e outras, pouco depois, estão "prontas para outra".

Saramago, em uma de suas célebres frases, afirma que a única maneira de liquidar o dragão é cortando-lhe a cabeça, não cortando suas unhas. Temos a mania de vez ou outra dar de comer ao dragão, fazendo-lhe sentir que pode ficar. Muitos de nós criam uma relação verdadeiramente afetiva com decepções, rancores ou medos, nutrindo compulsão pela repetição de memórias negativas. É como se a concretude do sentimento fosse mais valiosa que a liberdade de transformá-lo em algo novo (e consequentemente, como quase tudo que é novo, assustador). 

A abertura das algemas que nos prendem ao dragão, entretanto, mais do que sadia, é necessária. E é interessante perceber o quanto a chave da algema se altera de acordo com o grupo ou cultura em que nos inserimos. O budismo, por exemplo, enxerga os homens acorrentados demais ao passado ou ao futuro e, por isso, dissociados do momento presente, fato que gera a ansiedade que os enfraquece para o hoje. O cristianismo, por sua vez, prega a cura de experiências traumáticas pelo perdão. Para citar fontes mais palpáveis, tenho amigos que acham que a chave está na busca por um estado de ingestão alcoólica próximo do coma (a fuga, de algum modo, se aproxima do esquecimento). Cada um, pouco importa como, tem a missão de encontrar a sua chave. E encontrar, salvo exceções de sorte ou acaso, depende de procurar.

A cura pela ressignificação, portanto, é uma busca constante. É a distopia dos sentimentos, o confronto diário com sensações complexas de afirmação, ressentimento, dependência, fuga, sofrimento, medo. Não há, aqui, mertiolate que não arde sendo carinhosamente depositado na ferida. Ninguém assopra e diz que vai passar. Às vezes só passa. Às vezes, só, passa. Às vezes os anos passam e parece que não vai passar nunca. Não tem um botão pra apertar, um campo pra assinar. A essa altura somos nós e nossos demônios e a decisão de mantê-los alimentados ou não.

Só posso desejar que os seus morram de fome.

Nenhum comentário:

Postar um comentário