Quando a gente é criança e não sabe nomear alguma coisa basta perguntar a um adulto. "O que é amor? E calculadora? Qual o idioma falado pelo sabiá?"
As coisas, sejam elas quais forem, tangíveis ou não, são facilmente nomeadas por alguém que, pela natureza das coisas, deve saber mais do que você. O adulto habita um corpo maior, já deixou de ser criança há algum tempo, tem olheiras e paga contas, o que lhe credencia a opinar sobre a alfabetização dos sabiás como se fosse especialista.
Um dicionário nada mais é do que um adulto que resolveu categorizar em um livro todas as respostas que deu a uma criança sobre os significados das coisas. Basta escolher uma letra do alfabeto, consultar o índice e voilá, o adulto está habilitado a responder do que se trata.
É muito bom saber o nome, significado e o funcionamento das coisas. Quando crianças, é reconfortante saber que o machucado dói, mas passa. É seguro saber que com cinquenta centavos você pode ir até a venda da esquina e voltar com os bolsos cheios de balinhas mastigáveis. É fascinante saber que não tem ninguém morando dentro da televisão e só esperando você dormir para te dar um susto.
Mas eu suspeito que os adultos não sabem pra valer a resposta das coisas. E afirmo isso com conhecimento de causa: sou, hoje, adulta. Os documentos dizem. As contas que chegam lá em casa tem meu nome e, veja só, a casa para a qual elas são enviadas é minha. O cartório atesta essas coisas, não sou eu.
Mas sou eu quem diz que os adultos não sabem de nada. Noite passada adormeci no sofá e não acordei na cama. Qual nome a gente dá pra isso? Semana passada chorei categoricamente lágrimas que antes eram aparadas pelo colo da minha mãe, seguidas de algum conselho ou simplesmente de um toque manso. Não havia como pedir amparo, pois havia chegado a minha vez de ser adulta.
Eu também não soube nomear esse sentimento.
Trabalho todos os dias, lavo roupas, faço comida, pago contas, atendo ligações e resolvo problemas com o mecanismo de saída da descarga da privada. Se houvesse um selo me credenciando a ser adulta acho que constaria nele um carimbo da autoridade certificadora e uma foto minha em formato 3x4 com a mesma feição de desânimo de quando a pia entope e é a sua vez de ser adulto.
Vou ser tia. O milagre da vida, que vagueia por aí como um raio escolhendo onde pousar, pousou na barriga da minha cunhada [não, ao contrário do que você pensava, não é a cegonha que traz o milagre da vida pra barriga de alguém]. Prevejo, em breve, mãozinhas e perninhas comunicando o frescor da renovação. É oficial: estou envelhecendo. A ternura da novidade me relembra que o ponteiro do relógio viaja numa velocidade maior que a da nossa percepção.
Em breve, uma voz fina, doce e suave, entre berros por alimento, cocô fedido e sono tranquilo, me perguntará: titia, o que é o amor? E calculadora? Qual o idioma falado pelo sabiá?
Me pergunto em quais pontos do caminho me preparei para dar essas respostas, se nem mesmo vi o caminho passar. Até aqui ainda pareço muito perto do começo, muito embora já não veja o lugar de onde parti. Também já não acho que estou muito longe do final, embora ele também ainda não esteja visível no horizonte.
Não sei se aprendi o que devo dizer quando chegar a minha vez de redigir o tal dicionário. Ainda há lacunas que não preenchi desde a infância: qual o sentido da vida? Para onde vamos todos depois daqui? Como faz pra sobrar dinheiro no fim do mês?
Só sei que, bem ou mal, aprendi a articular um pouco a língua do coração. E vejam que não é a toa que a palavra coração termine com ação. No auge desses quase trinta anos (sim, eu escrevi isso em voz alta!), ainda me assombra o poder da ação. O impacto que o servir pode ter na vida do outro, nos arredores, na comunidade e, por que não, no mundo? Dalai Lama dizia que se você acha que é pequeno demais para fazer a diferença precisa tentar dormir com um mosquito.
Essa novidade em forma de bebê é como jogar uma pedra num lago e ver todo o arredor reverberando a energia daquela presença.
Espero que, quando me faltar repertório para nomear as coisas, me sobre coração. Colo. Carinho. Mansidão. Empenho. Espero colonizar os olhinhos desse mini ser humano não com certezas que nem eu mesma tenho, mas com presença, serviço, calmaria. Qualquer coisa que lhe faça entender que para viver não precisamos de todas as respostas no dicionário. Não precisamos de muitas coisas, também. Mas precisamos uns dos outros.
Estou ansiosa para precisarmos um do outro.
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