quarta-feira, 26 de abril de 2023

Mosaico

Minha casa não é mais minha. A casa que eu moro, muito menos. A rua não me é familiar. A vizinhança não tem o mesmo tom. A casa agora é como um hotel: impessoal, gélido, de uma sobriedade tamanha que é como se nunca tivesse me pertencido. Como se os interruptores não conhecessem meu toque de dedos molhados de lágrimas pelas tristezas que o escuro do meu quarto guardou. Só que agora o pronome possessivo não mais cabe. Não é mais meu quarto. Nada é mais meu que o não mais possuir nada. Não tenho mais endereço de remetente. De onde remeto as queixas, as alegrias, de onde as expurgo? De lugar algum. Agora as guardo. Aguardo. Um dia hei de ter uma casa pra chamar de minha. 

Uma casa rodeada de flores pra olhar da janela. De rede no quintal. De ouvir o vento à noite. Uma casa pra constar meu nome, meu espírito, meu legado. Uma casa pra abrigar minha família, minha obra. Uma casa para nascer quem sou, morrer quem fui, uma casa para reunir, para voltar no fim do dia, para informar nos cadastros da concessionária de energia. Um cachorro e mantas quentinhas. Um sino. Um lar. Para acordar. Pra vida. 

A propriedade só existe por que o homem precisa de um canto para chamar de seu. Um espaço para dominar, para dançar, para expor as alegorias que passa o dia escondendo dos outros. Uma sala de estar para livrar o mal que costuma acompanhar o verbo. Paredes para pintar de várias cores. Um aconchego para adormecer. Portas para abrir. E para ensinar aos filhos que quando elas fecharem podemos abri-las novamente, tantas vezes quantas forem necessárias. E vê-los abrindo portas. Batendo-as na nossa cara. Ganhando o mundo. Levando com eles o cobertor que passamos a vida tecendo para garantir que nunca sentissem frio. Saber que sentirão mesmo assim. E não poderão voltar. Não há caminho de volta. 

Minha casa não é mais minha. Não se parece em nada com quem fui. Não se parece em nada com quem sou. Minha casa me alienou de mim. Tive que construir para além do que sabia ser meu. É assim que a gente sabe que cresceu: quando não cabe mais o que a gente conhecia, sabia e tinha certeza, quando a gente precisa reunir cacos e fabricar um mosaico de tudo que a gente acha que é, foi ou pode ser. Não caber mais é o maior sintoma. Roupas, lugares, pessoas, a métrica é a mesma. Quando não cabe mais, a gente tira. E fica torcendo pra continuar sendo alguma coisa sem a parte que saiu. Às vezes um pedacinho fica grudado. E vai de bagagem com a gente. No retrovisor da vida estamos sempre acenando para alguém que deixou pedacinhos em nós. 

É isso que acontece quando a gente olha pra trás: as rachaduras, agora em mosaico, deixam passar a luz e criam uma grande e bela figura. A casa não é mais minha por que agora carrego ela em mim.

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