quinta-feira, 9 de novembro de 2023

A hora de se retirar

Meu primeiro ícone literário foi Martha Medeiros. Eu só tinha catorze anos e, olhando em retrospecto, não acho que compreendia muito bem o universo que ela descrevia em suas crônicas, mas o cotidiano tem esse dom de pegar a gente de jeito e era isso que os textos faziam comigo. De lá pra cá consumi praticamente tudo que ela produziu e só não invadi os pensamentos dela porque, em primeiro lugar, deve ser crime em algum lugar do mundo e, em segundo, porque num mundo tão exposto ao menos na nossa cabeça a gente merece um pouco de intimidade. Mas não foi por falta de vontade.

O que sempre me admirava nas crônicas da Martha, além de se parecerem com um doce de confeitaria - que é bonito por fora, mas que é ainda melhor quando degustado -, eram os finais. Martha sabe encerrar uma crônica como ninguém, o oposto de mim, que sempre considerei meu maior defeito na escrita um alto grau de inconclusividade no grand finale, a incapacidade de arrebatar o leitor.

Martha sabe fechar com chave de ouro, sabe se despedir do espetáculo, sabe deixar a plateia saciada na medida. Martha sabe a hora de se retirar.

Acho que esta aí uma qualidade de poucos hoje em dia: saber a hora de se retirar. Um artista, no palco, normalmente no fim do show, volta para cantar mais uma porque o público pediu bis. Ele deixa a galera em polvorosa, mas depois vai embora na hora exata: nem tarde demais para deixar o show exaustivo, nem cedo demais para frustrar as expectativas de diversão; vai exatamente na hora de deixar o gostinho de quero mais.

Na vida, mais do que na arte, a gente precisa saber a hora de se retirar. Nem sempre é antes de tomar café da manhã após uma noite de amor. Nem sempre é batendo a porta após uma briga homérica sobre algum tema requentado que surgiu porque estava mal resolvido e explodiu no meio do café da tarde. Nem sempre é bloqueando nas redes sociais. Nem sempre é quando a gente já esperou demais pelo atendimento e trocou meia dúzia de palavras deselegantes com a assistente do consultório. Nem sempre é sendo atropelado ao meio-dia numa avenida movimentada.

As vezes é em silêncio. A gente se retira deixando de perguntar se o outro quer alguma coisa do supermercado. A gente se retira resgatando planos que tinham sido afundados pela rotina e os colocando de volta em evidência, assoprando o pó da indiferença que pairava sobre eles. A gente se retira entendendo que só existe dignidade dentro de um limite no qual, normalmente, as esperas eternas não cabem. A gente se despede quietinho, no chão do banheiro, chorando sem soluçar, sabendo que a decisão dolorosa é a certa. A gente se despede da vida deixando de funcionar, aos poucos, até um dia não acordar. A gente se retira sem aplausos, sem pedido de bis, sem furacão, mas em paz.

Tenho me retirado de muita coisa. Um desmame, uma despedida, um abandono mudo. Tão legal se livrar dos pesos, caminhar leve, olhar para a vida sob novas lentes. O tempo transforma nossas perspectivas em varandas para vistas tão diferentes que a gente mal pode esperar pelo próximo tropeço e para onde ele vai nos levar. É verdade que em boa medida ainda me sinto aquela garota de catorze anos: sem compreender muito bem o que está ao redor. Mas sigo apaixonada pelo cotidiano que enxergo e, agora, não desejo mais invadir os pensamentos nem da Martha nem de ninguém. Descobri nos meus o meu melhor refúgio. Dá licença, vou me retirar para encontrá-los.

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