Para ler ao som de Mercedes Sosa - Canción de Las Simples Cosas
Não sei dar o nome a certas coisas. Como se chama quando olhamos para trás, em pensamentos, e há uma imensa lembrança da pessoa que éramos? Não é uma saudade, não é um arrependimento. Não faz cócegas nem faz chorar. É um sentimento quieto, mas constante. Há um pesar por ser um tempo intocável e, ao mesmo tempo, uma satisfação pela mesma razão. Essa coisa sem nome repousa, hiberna, ora dolorida, ora atraente, numa caixa da mente que quase não se abre. Mas quando a gente abre, ela, a coisa, escapa. Parece a bailarina que se põe a dançar quando alguém dá corda na caixinha de música. Ela está lá, empoeirada, adormecida, e sem mais nem menos, sem pedir permissão, abre um fecho de luz colore de volta todas as paredes ao redor. Como é o nome da emoção que a gente sente quando enxerga pedaços nossos nos percursos que fizemos em tempos nos quais sequer imaginávamos que aquele lugar se tornaria importante? Como é o nome da noção que a gente não tem naquela hora, de que pode estar vivendo algo único, encapsulado no tempo e enviado diretamente para a cabeça da gente e anos após, enquanto assistimos a cidade anoitecer quieta, nos pegamos dispersos em lembranças?
Ouço Mercedes dizer que "a gente sempre retorna aos velhos lugares em que amou a vida" e me vejo sentada no chão daquela biblioteca lendo O livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, imaginando um futuro tão diferente do "futuro" que de fato vivi; me vejo sentada em frente ao computador, sozinha, na noite silenciosa, ouvindo músicas sobre uma vida ainda tão distante que eu sonhara viver; me vejo sentada nos bancos de uma universidade, dos ônibus, indo e voltando com livros e planos e pelejas e esperas. Se me pusessem um espelho hoje veria em algum lugar aquela menina. Não sei se ela tinha consciência de que amava a vida. Talvez não tenha ainda hoje. Havia alegria na ingenuidade juvenil que ela carregava de que tudo era possível e urgente. Como se chama quando o que era possível e urgente vai se desintegrando nos dias, até formar uma camada de poeira sobre os encantamentos que tínhamos?
Pergunto-me se é preciso dar nome às coisas. Em terapia diz-se que sim. Em meu íntimo digo que o intraduzível é parte do mistério da vida, ao qual devemos nos curvar. Não sei que nome dou ao que carrego. Nomear, por si só, não cria algo que já existe, mas sentencia, encaixota. Não quero dar nome às coisas para que elas possam seguir sendo as coisas sem nome que me conectam com quem fui. Sou um apanhado delas, de todos os tamanhos, formas e tipos. Estive lá, amei a vida, sou parte delas. E elas de mim.
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