Convido você a refletir sobre o que não saiu conforme o planejado na sua vida. Pode ser a chegada inesperada de um filho, um relacionamento, uma amizade com alguém que você não simpatizava, um carro, um trabalho, uma cidade.
Convido você a se colocar numa sala vazia e preenchê-la com tudo aquilo que saiu conforme você não planejou. É possível que você descubra coisas que, por acidente, passou a amar e que encontre valor no que era um descuido, um imprevisto.
Liste agora as coisas que quis e conseguiu. Coloque-as na mesma sala vazia e veja quantas ainda possuem o valor de quando as queria. Esse não é um exercício de Schopenhauer para concluir que a ânsia de conquistar e o tédio de possuir são marcas humanas. Esse é um exercício para encontrar valor no acaso, na fala fora do script, no passo de dança que, mesmo ensaiado, não saiu alinhado. É um exercício não pelas preces não atendidas, mas pelas preces atendidas de um jeito que a gente não era capaz de compreender quando chegaram.
É verdade que quando a gente compra um carro passa a vê-lo com mais frequência na rua. Não se trata de uma mera sincronicidade. Catalizamos nossa energia para reconhecer aquilo que é familiar, interessante, relevante para nós. É um viés cognitivo que a psicologia chama de fenômeno Baader-Meinhof.
O exercício que proponho, hoje, é que catalizemos essa mesma energia para identificar o que, em nós, chegou por acaso, coincidência, erro de cálculo destino, imprevisto, descuido ou como você prefira chamar e que ganhou espaço cativo.
Quantas coisas, pessoas e momentos deixamos de amar, abrir espaço e saborear porque não eram, a princípio, nossa escolha?
Será que escolhemos perceber o mundo à luz do que gostaríamos que tivesse acontecido e, por causa disso, deixamos de nos alegrar com o que de fato aconteceu?
Imagino que o leitor conclua, agora, que o tema é banal e que já foi tratado em demasia, resvalando em lugar comum, que normalmente se encerra com um conselho do escritor dizendo "pense fora da caixa" ou "veja com outros olhos". A proposição, de fato, é óbvia.
Mas o meu ponto não é sugerir que basta ver uma batida de carro inesperada pelo lado bom, afinal, olha só, você está vivo.
O meu ponto é: superestimamos o querer em detrimento de uma alegria nativa, simples, vinda do cotidiano e do que lhe ocorre? Como aprender a amar, aceitar e acolher e transformar, em nítida alusão existencialista, o que fizeram de nós, sem que isso seja fonte de eterna angústia e náusea?
Penso que tenho uma vida boa. E que se a minha lista de desejos escrita aos 15 anos tivesse se realizado sem impermanências, talvez, só talvez, considerando tudo aquilo que sei hoje, eu não teria uma vida boa.
Os cristãos atribuem o entendimento sobre o que acontece ao plano de Deus para a vida de cada um e a Sua sabedoria infinita para discernir o que é melhor. Cada cultura e sociedade organiza teorias que melhor justificam o que se lhes acontece.
Talvez eu só quisesse criar a minha. Ou justificar a alegria que sinto pelas minhas não-realizações terem me trazido a tão longe. A vistas que jamais imaginei ver. A percalços, também. Mas ao valor intrínseco que encontro em mim, e não no trabalho, no carro, na relação, na cidade.
O que não realizamos nos modifica por completo. Nos dá a chance de viver a realidade sem cortes, firulas ou poemas. Nos obriga a lidar com o inesperado e a transformar água em vinho. Nos faz, por isso mesmo, mais humanos e mais próximos e dependentes de Deus (ou de como você prefira chamar a força que de algum modo nos conduz na Terra).
Diria Drummond que "no meio do caminho tinha uma pedra" e que suas retinas fatigadas jamais esqueceriam. Mas insisto, como que em resposta a Drummond, me valendo das palavras de Antônio Pereira, que a diferença nunca esteve na pedra... mas no homem (leia aqui).
Convido você a acenar para tudo aquilo que não foi, que não deu. A fechar os olhos quantas vezes for preciso, até que, ao abri-los, seja possível visualizar bilhetes por toda parte, repletos de possibilidades, cenários e imagens que só uma pedra no caminho pode trazer à luz. A luz entra pelas rachaduras.
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