quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Para ler ao som de: The Lumineers - Cleopatra

Meus sonhos sempre foram uma fonte inesgotável de respostas e de intuição. De tão vívidos, por vezes não concebia o que, neles, era real ou não. Nem sempre eram respostas claras. Às vezes, só denotavam alguma ligação magnética com um local, uma pessoa ou um objeto. Noutras, eram um quadro abstrato, mas que ainda assim confortava e entorpecia.

Noite passada sonhei com uma caixa, tal qual a de Pandora, mas que em vez de desgraças e maldições, guardava o poder de escolha sobre algo que, a depender do desejo de quem viesse a abrir, podia ser uma bênção ou não. 

A escolha sobre conhecer ou não alguém.

Enxergando em perspectiva, ter o poder de "desconhecer" ou jamais conhecer alguém.

É claro que todo mundo consegue pensar em alguém que alimentaria o desejo de abrir a caixa. Só que nunca se sabe em qual ponto exato do caminho a existência daquela pessoa  - ainda que julguemos ruim o saldo que ela deixou na passagem pela nossa vida - fez ou trouxe algo de bom. 

Pode ser que aquilo que começou numa quarta-feira ensolarada tenha terminado num domingo chuvoso e solitário, sem meias palavras e ao mesmo tempo sem um adeus pronunciado. Depois de um tempo, a poeira se assenta e a gente começa a lembrar só da quarta-feira ensolarada ou só do domingo chuvoso e solitário e, com isso, praguejar a pessoa, seja por ter ido embora deixando algo de bom que machuca, seja por ter ido embora deixando algo de ruim que, por coincidência, também machuca.

É fácil querer apagar essa pessoa da memória, dos registros públicos, do planeta.

Mas... e se em algum momento do caminho a forma como essa pessoa agiu foi o motivo para você tomar o caminho que te levou a uma conquista importante? E se a simples existência daquela pessoa for o nexo de causalidade entre você e uma grande melhoria interna?

A teoria do efeito borboleta sugere que pequenas mudanças em uma parte de um sistema podem levar a grandes diferenças no futuro. Vários filmes, livros e músicas já trataram de teorizar isso.

Olhando para a minha vida, várias pessoas foram gatilhos.

Vários lugares.

Outros tantos objetos.

Olho com carinho para todos. 

Mesmo os que me partiram ao meio, me viraram do avesso - e não foram poucos. Tenho flores sorrindo por dentro em lugares antes habitados por aridez e solo estéril. No bosque da alma, tenho árvores que choram e, no instante seguinte, brotam. Há frutos maduros do que um dia foi decepção em seu estado mais primitivo.

Há quem convide a chamar tudo isso de retalhos que a gente elabora de novo e de novo, tudo a partir do que nos acontece. E assim formamos a colcha da vida.

Se é agridoce o tecido, como excluir da trama o fio imperfeito?

Adoro açaí. Experimentei graças a um paquera, cuja entrada meteórica e improvável na minha vida só não foi mais inverossímil que a nossa compatibilidade física, mental, moral, cultural e astral. Abriria com facilidade a caixinha pra ele, por indiferença e para limpar o "cache", como se diz no TI. Mas para o açaí, aí não...

Esta é a hora em que você me diz que eu poderia ter experimentado açaí com outra pessoa, certo?

Certo.

E é aqui que eu digo que todas as nossas experiências estarão atreladas, necessariamente (correndo o risco de ser pega no pulo do gato pelo uso de generalizações, mas vamos lá), a uma pessoa, um lugar ou objeto.

Eu escolho ficar com o açaí, mesmo que precise lidar com a incompreensão de uma decisão que, hoje, acredito ter sido tomada sob efeito de alguma substância alucinógena ministrada sem o meu conhecimento.

Afinal, a vida é yin e yang, dual, antimaniqueísta.

O sorvete de casquinha precisa derreter nas bordas e lambuzar os dedos.

A cadeira de balanço precisa dar vertigem se brincar demais.

A caixinha, bem, acordei.

E ela ficou fechada.

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