segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Escombros

Não lembro ao certo qual implosão fez a construção inteira desmoronar. Não sei se houve uma apenas, ou se foi a sucessão de várias pequenas e cotidianas implosões, absorvendo o impacto, se remodelando, até o dia em que não foi mais possível conter o avanço das rachaduras.

Sem aviso, os anos foram ao chão e eu fiquei sob os escombros. Não completamente surpresa, mas completamente incrédula. Não completamente inocente, nem inteiramente culpada. Incapaz de me mover e sem o desejo de ser resgatada. Me apegar ao resto, às sementes, à poeira, à deterioração de nós, foi em vão.

Naquele dia o telefone tocou, lamentamos a partida e ela me disse: a gente não casa com o amor da nossa vida, não. Aparentemente todo mundo já sabia. Delatavam-me que os parques, as esquinas, os lugarejos todos já desfilavam o assunto. 

Eu insistia em remendar as pontes, mas houve um dia em que o frio se instalou. Tomou conta de cada canto, de cada silêncio, ganhou dimensão, invadiu o peito. Ali eu percebi. O céu havia mudado. Da independência à morte. Enterrar sonhos e ser enterrada por eles.

A engrenagem gira, o céu muda, a fala cala. A gente se aquieta, se inquieta, se abala. Se pergunta, muda de assunto, desconversa, mas sente a beça. 

A gente se casa com nossas memórias, um colcha delas. A gente se casa com o sol da tarde vazia, com os móveis empoeirados de outrora, com o rosto familiar no fim do corredor. O esconde-esconde não acaba quando a gente cresce. À sombra de nós permanecem rarefeitas as aspirações de um tempo em que acreditávamos tudo ser possível. Em que tudo era, verdadeira e sobriamente possível.

Queria eu dispor de uma varinha mágica no lugar do coração. Havia uma forquilha e ali no despedimos. Eu dele, ele de mim, a gente da gente. Que rumo tomou, não sei. O céu sequer saberia. Perguntei às cartas, aos búzios. Procurei bruxas, curandeiras, meretrizes. Foram todos unânimes: mal algum resistia a seguir em frente.

Coloquei um mapa na mochila, um binóculo para não engasgar a vista trocando alhos por bugalhos e fui caminhar. Atravessei desertos, campinas, jardins, subi em atalaias, fiz sentinela dia e noite, noite e dia. Ousei, arrisquei, não descansei. O exército de uma só, de sempre só, de antes só. 

O peso dos escombros não saiu das costas da viajante. Não saiu de mim, das minhas entranhas, do meu retrovisor. Ele enevoou o binóculo. Ressenti-me do que eu poderia ter visto mais nitidamente não fossem as dores embaladas na bagagem. Não é fácil se despir de nós.

De volta à cena, à sombra de tantas memórias, à luz do rio sob a ponte e dos escombros afogados nas profundezas do tempo, ouvi uma doce melodia colorir o verde das árvores. 

Tudo estava lá, redescoberto. Uma cidade inteira do que fui, do que vivi. Os mesmos escombros, a dura pele, as longas horas, todas as frações de segundo. Eu abria caminho, mais uma vez. A passos largos, olhava para tudo novamente com os mesmos olhos de sempre, mas sem mágoa e sem magia. Encarei a mim mesma no riacho. Despi-me. De mim, de ti, de nós. Desejei que aquele amor chegasse até você, te guiasse. O que aprendi foi bússola, sempre será. 

Encontrei atalho nos escombros e do lado de cá não parecia um castelo desmoronado. Parecia um castelo. Uma boa estrutura, falhas de percurso, quartos inacabados. Um castelo abandonado. As crianças passam na porta e se perguntam se é mal assombrado, quem viveu ali. Elas se perguntam o que aconteceu, quem deixou de molhar a roseira morta no jardim, quem esqueceu a vidraça aberta e quanto tempo levou para que as cortinas ganhassem o ar de abandono que todo o resto já tinha. Elas observam, entram nos cômodos e pensam na infinidade de coisas que poderiam fazer com aquele lugar. A morte dá lugar à possibilidade.

À espreita, observando as crianças, uma delas de repente gritou: vejam, está brotando. 

E havia um botão de flor no chão. Tímido, fechado, encarando o solo que não parecia fértil, o entorno tão improvável. Ele se arriscava a nascer, se nutria contra todas as expectativas, parecia dizer "eu perdoo".

Um dia ele vai abrir.

Será uma linda flor.

Os lugares que amamos permanecem vivos para que outros continuem a história.

Um novo céu abrirá.

É novembro, agora.

Há estrelas e elas cantam para nós.

A gente se casa com a nossa história, seja ela qual for. 

A minha acaba aqui.




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